Bedrock Streaming: como a IA está a mudar a engenharia nas plataformas de streaming

Descubra como a Bedrock usa IA para acelerar o desenvolvimento, transformar processos de engenharia e criar plataformas de streaming à escala europeia.

A Bedrock Streaming é uma empresa de tecnologia de streaming fundada em 2020 através de uma joint venture entre o Groupe M6 francês e o RTL Group do Luxemburgo. É o motor de plataformas como a M6+, a RTL+ na Alemanha e na Hungria e a Videoland nos Países Baixos, com um alcance superior a 45 milhões de utilizadores e 10 milhões de subscritores em toda a Europa. Com 450 pessoas distribuídas por Lyon, Paris, Colónia e Lisboa, a empresa constrói e opera as plataformas de grandes grupos de media europeus que competem com os gigantes globais do streaming.

O escritório de Lisboa abriu em novembro de 2023, no IDEA Spaces de São Sebastião, e acolhe vários dos principais especialistas de IA da empresa. Conversámos com Ricardo Castelhano, CTO, sobre como a Bedrock está a usar a IA para mudar a forma como as suas equipas trabalham e o que é possível construir no streaming.

1. A Bedrock tem uma missão clara: construir plataformas de streaming capazes de competir com os gigantes globais. O que torna este desafio tecnicamente interessante para um engenheiro?

Competir com plataformas como a Netflix ou a Disney+ não é apenas uma questão de produto; é um problema sério de engenharia. Estas plataformas contam com equipas de milhares de pessoas e anos de avanço. Para as enfrentar, ter boas ferramentas não basta: são necessárias escolhas de arquitetura muito deliberadas e sistemas construídos para aguentar pressão real.

O que torna isto genuinamente interessante é a escala e a imprevisibilidade. Estamos a falar de milhões de espectadores a aceder ao mesmo tempo, muitas vezes por causa de um evento em direto, em que qualquer falha fica imediatamente visível. Há muito pouco espaço para "logo tratamos disso".

A juntar a isso, há agora uma nova camada: estamos a repensar como as próprias equipas trabalham, com sistemas inteligentes a fazer parte do processo de desenvolvimento. Isso altera o tipo de problemas que os engenheiros resolvem e torna o trabalho mais exigente e mais estimulante ao mesmo tempo.

2. A Bedrock está a passar por uma profunda transformação na forma como as suas equipas de engenharia trabalham. De onde veio esta decisão e porquê agora?

A decisão veio de uma leitura muito concreta deste momento: os próximos meses vão separar as empresas que se adaptaram daquelas que ficaram para trás. E queremos estar do lado certo dessa linha.

O que mudou foi a forma como pensamos o problema. Percebemos que acumular ferramentas não chega. O verdadeiro impacto resulta de redesenhar os processos à volta delas: como as equipas tomam decisões, como os sistemas são concebidos e como o trabalho flui de um ponto para o outro.

É por isso que a transformação cobriu toda a empresa, desde tarefas administrativas até à forma como os engenheiros constroem e operam sistemas em produção. O momento é agora porque esperar significa perder uma janela que não voltará a abrir-se da mesma forma.

3. A Bedrock Streaming fornece a tecnologia por trás de plataformas como a M6+ em França, a RTL+ na Alemanha e na Hungria e a Videoland nos Países Baixos, ao serviço de mais de 45 milhões de utilizadores e mais de 10 milhões de subscritores. Para quem ainda não conhece a empresa, o que constrói exatamente a Bedrock?

A Bedrock é a tecnologia por trás das plataformas. Construímos e operamos a infraestrutura que permite a grupos de media europeus gerir os seus próprios serviços de streaming, com a sua própria marca, o seu próprio conteúdo e as suas próprias audiências.

Isto significa que plataformas como a M6+ em França, a RTL+ na Alemanha e na Hungria ou a Videoland nos Países Baixos funcionam com base na nossa tecnologia.

O que construímos cobre tudo o que é necessário para uma plataforma deste tipo funcionar: desde a ingestão e distribuição de conteúdos até à experiência do utilizador, bem como a gestão de tráfego durante eventos em direto, onde a margem de erro é basicamente zero. O nosso trabalho é garantir que estas plataformas conseguem competir em qualidade, escala e fiabilidade com os maiores serviços globais.

4. A empresa tem 450 pessoas distribuídas por Lyon, Paris, Lisboa e Colónia. Que papel desempenha o escritório de Lisboa nesta estrutura europeia?

Lisboa é um dos polos mais ativos da empresa no que toca à experimentação em IA. Vários dos engenheiros na linha da frente deste trabalho em IA estão sediados aqui.

A Bedrock tem equipas distribuídas por Lyon, Paris, Colónia e Lisboa, e cada escritório desempenha o seu próprio papel dentro desta estrutura europeia. Lisboa destaca-se como um polo relevante na transformação pela qual a empresa passa, porque é aqui que estão alguns dos contribuidores mais ativos na área da IA.

Isso tem um impacto direto no tipo de trabalho que se faz neste escritório. Não estamos à espera que as decisões venham de outro lado; estamos a construir, a testar e a definir práticas que mais tarde chegam ao resto da empresa.

5. Operam em ambientes de tráfego intenso e grande exigência, onde o desempenho e a estabilidade são inegociáveis. De que forma a adoção de IA está a mudar o modo como a equipa monitoriza, audita e assegura a qualidade em sistemas em produção?

A adoção de IA mudou a forma como podemos garantir a qualidade em sistemas que não toleram falhas. A esta escala, não é possível depender apenas de revisão manual ou de processos reativos; são precisos sistemas que apanhem problemas antes de estes chegarem a produção.

Criámos ferramentas internas que auditam o desempenho, detectam anomalias e sinalizam situações de risco de forma contínua. O que antes exigia intervenção humana em cada etapa tem agora uma camada de supervisão automática que liberta as equipas para se concentrarem nos problemas que precisam genuinamente de discernimento humano.

A IA não substitui essa responsabilidade; estrutura-a. Os engenheiros continuam a tomar as decisões críticas, mas com muito mais informação e muito mais depressa. Em ambientes de tráfego elevado, essa diferença conta muito.

6. A Bedrock está a redesenhar processos internos, ao passar de um modelo centrado em ferramentas de IA individuais para fluxos de trabalho completos. O que mudou concretamente no dia a dia de uma equipa de engenharia com esta transição?

A maior mudança foi perceber que as ferramentas por si só não chegam. O que fizemos foi dar um passo atrás para repensar como o trabalho se organiza e só depois decidir onde a IA encaixa.

Isso teve consequências concretas no dia a dia das equipas. Tarefas que antes consumiam o tempo de engenheiros experientes, como refactorização, escrita de testes ou trabalho administrativo repetitivo, contam agora com apoio automático. Não desapareceram, mas deixaram de estar no centro da agenda.

O efeito mais importante não é a velocidade, embora essa também mude. É o que essa velocidade liberta: mais espaço para pensar a arquitetura, para questionar decisões de sistemas e para trabalhar em problemas sem resposta óbvia. É aí que o trabalho de engenharia se torna mais interessante, e é aí que queremos as nossas equipas a investir energia.

7. A Bedrock criou um grupo interno de engenheiros chamado Tiger Team, dedicado a testar cenários de risco com agentes de IA em ambiente real antes de os implementar no resto da empresa. Como funciona o trabalho da Tiger Team?

A Tiger Team é o nosso grupo de engenheiros dedicado a testar o que ainda não foi comprovado. O nome não é por acaso; é uma unidade pequena e focada, colocada deliberadamente na linha da frente.

O seu trabalho é ir direto aos sítios onde as coisas podem falhar: cenários de risco, casos limite (edge cases), situações em que um agente de IA tem um comportamento inesperado. Quando algo corre mal, e por vezes acontece, a equipa analisa o que se passou, documenta e transforma isso em aprendizagem estruturada para o resto da empresa.

Há uma razão para este processo existir antes de qualquer expansão mais alargada. A Bedrock opera a uma escala onde uma falha não é apenas um problema técnico: tem um impacto real nas plataformas e nas audiências. Por isso, a experimentação tem regras: segurança, proteção de dados e estabilidade dos sistemas são tidas em conta desde o primeiro dia. A equipa delineia estratégias de reversão (rollback) e trabalha para minimizar o impacto de qualquer erro antes de validar uma abordagem para utilização mais ampla.

O objetivo final é que o conhecimento por ela produzido chegue a toda a organização, sob a forma de modelos, guias e práticas que outras equipas possam adotar com confiança.

8. Já identificaram tarefas de engenharia que passaram de semanas para dias com fluxos de trabalho assistidos por IA. Que tipo de trabalho foi o primeiro a mudar e o que é que isso permitiu às equipas fazer a seguir?

O primeiro tipo de trabalho a mudar foi o mais repetitivo: refactorização, escrita de testes, tarefas administrativas que faziam parte do ciclo normal de desenvolvimento, mas não exigiam o melhor raciocínio de ninguém. É precisamente esse o tipo de tarefas em que a IA tem um impacto imediato e mensurável.

O resultado foi uma compressão real dos prazos. Trabalho estimado em semanas começou a ficar concluído em dias. Em certos casos, e sempre sob supervisão, a diferença foi suficiente para mudar a forma como as equipas planeiam e definem prioridades.

O que isso libertou importa mais do que a velocidade em si. Com menos tempo preso em tarefas de baixo valor, os engenheiros ganharam mais espaço para se focarem em decisões de arquitetura, em problemas de sistemas mais complexos e numa iteração mais rápida de funcionalidades. O ciclo de desenvolvimento ficou mais curto, e isso tem um impacto direto no que é possível construir e experimentar.

9. O escritório de Lisboa tem sido um dos polos mais ativos na experimentação em IA dentro da Bedrock. Que tipo de engenheiros procura a empresa para reforçar esta equipa?

O que nos interessa são engenheiros genuinamente curiosos, que se adaptem bem à mudança e que não se sintam desconfortáveis quando o ambiente à volta deles está em evolução.

Isso é especialmente relevante neste momento. Estamos numa altura em que as ferramentas mudam depressa, em que os processos estão a ser redesenhados e em que trabalhar com sistemas inteligentes passa a fazer parte da rotina da engenharia. Quem se sentir atraído por esse tipo de contexto, e não apenas o tolerar, é quem vai ter sucesso aqui.

Lisboa é um polo ativo nesta transformação. Quem se juntar a esta equipa vai construir a mudança.

10. Ricardo, enquanto CTO da Bedrock, descreves um futuro onde os engenheiros passam menos tempo a escrever código repetitivo e mais tempo a desenhar arquitetura e a orquestrar agentes inteligentes. Que conselho darias a um programador que se queira preparar para esta mudança?

O primeiro passo é mudar a forma como pensas sobre o próprio trabalho. Um programador que espera continuar a fazer o mesmo trabalho da mesma maneira, apenas com ferramentas mais rápidas, vai ficar desiludido e, provavelmente, para trás. A mudança é estrutural.

O que isso significa em concreto: investir na compreensão de sistemas, não apenas em escrever código. Aprender a pensar em termos de arquitetura, a questionar como as peças encaixam umas nas outras, a reconhecer o que faz sentido delegar a um agente e o que exige discernimento humano. Essas competências tornam-se mais valiosas.

O outro ponto é criar à-vontade com a incerteza. Os melhores engenheiros nos próximos anos vão ser aqueles que souberem fazer as perguntas certas, adaptar-se quando o contexto muda e orquestrar sistemas que executam a uma escala que seria impossível de forma manual. É esse o perfil que procuramos, e é também o perfil que neste momento cria a oportunidade de desenvolver.

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