Nutrium: a empresa tech portuguesa onde os engenheiros querem ficar

Como a equipa de Engenharia promove autonomia, IA, crescimento e baixa rotatividade numa startup tecnológica portuguesa.

A Nutrium nasceu em 2015 na Universidade do Minho, em Braga, com uma missão clara: tornar a nutrição personalizada acessível a todas as pessoas. O produto original é um software para nutricionistas que permite gerir consultas, acompanhar pacientes e construir planos alimentares. Hoje, a plataforma conta com 350 mil nutricionistas registados em mais de 90 países.

Em 2024, a Nutrium lançou o Nutrium Care, um programa corporativo de acompanhamento nutricional para organizações. Os resultados chegaram depressa: 400% de crescimento de receita e uma Série A de 10 milhões de euros. O objetivo para 2026 passa por escalar o Nutrium Care nos Estados Unidos.

Como empresa de base tecnológica, a equipa de Engenharia é uma peça central para a expansão e inovação da Nutrium. Organiza-se, atualmente, em dois squads, divididos por quatro áreas: Mobile, Web, Infraestrutura e Inteligência Artificial. Num setor conhecido pela elevada rotatividade, a Nutrium consegue manter uma equipa estável e coesa. Francisco Neves, Head of Engineering, partilha o que sustenta essa estabilidade e por que é que tantos engenheiros escolhem ficar.

1. Francisco, o que te trouxe à Nutrium e o que te fez querer ficar?

A resposta simples é "história". A Nutrium nasce num projeto de Engenharia Informática na Universidade do Minho, do qual fiz parte por me identificar com o propósito do projeto: impactar a saúde das pessoas através dos seus hábitos alimentares. Esta primeira ligação emocional fez com que, após terminar o meu percurso académico, decidisse voltar a juntar-me ao projeto cinco anos depois de a empresa ter sido fundada.

Além dessa ligação emocional inicial e de propósito, encontrei na Nutrium uma equipa jovem que acredita que consegue chegar a qualquer lado, oportunidades de crescimento a nível profissional e liberdade de poder (na verdade, é até esperado que assim seja) contribuir para a empresa de várias formas, além do que seria expectável de alguém que entra com um chapéu de engenheiro.

Diariamente, vamos sendo desafiados a pensar fora da nossa zona de conforto, convidados a ser parte das decisões mais macro da própria empresa, e isso torna a nossa opinião valiosa e até útil para o caminho que fazemos como empresa.

2. Conheces bem o setor e as suas oportunidades. O que é que a Nutrium tem, no concreto do dia a dia de um engenheiro, que te faz sentir que é diferente?

Acredito que há pelo menos três coisas relevantes: ownership de início ao fim, relações interpessoais e equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.

Sobre o ownership, começa desde logo pela transparência sobre o caminho que a empresa quer seguir e os objetivos que quer atingir. Depois, quando transformamos esse caminho em iniciativas, os engenheiros são envolvidos muito cedo: desde pensar na experiência do utilizador, a discutir complexidade técnica, velocidade, exequibilidade ou até questionar se estamos realmente a resolver o problema certo.

E há uma parte importante: não terminar depois de entregar. Os resultados são acompanhados, conhecidos e partilhados por quem esteve envolvido. Existe um sentido real de responsabilidade e impacto sobre aquilo que construímos.

É bastante diferente de um contexto onde o trabalho de Engenharia é essencialmente fechar tickets. O que acreditamos é que um engenheiro é um criador de soluções e, como tal, deve perceber o problema que está a tentar resolver, ter contexto para tomar boas decisões e poder influenciar a forma como lá chegamos.

A tudo isto juntamos relações interpessoais fortes e um equilíbrio entre vida pessoal e profissional que é, de facto, protegido.

Temos momentos presenciais com a equipa, tanto em contexto de trabalho como em atividades de empresa, e realizamos 1:1s regulares para acompanhamento e aprendizagem mútua. Além disso, a organização de prioridades e da carga de trabalho é feita sempre com um princípio em mente: o trabalho não deve ser resolvido à custa da vida pessoal.

No fundo, acredito que a diferença está muito em Engenharia não ser vista como uma função de execução, mas como parte da construção do produto e da empresa.

3. Dizem que a retenção começa no primeiro dia. Como é o onboarding na Nutrium e o que fazem de diferente nas primeiras semanas para que um novo colaborador da equipa de Engenharia se sinta integrado?

O que acredito é: ninguém se sente parte de algo que não conhece com transparência, nem de um grupo de pessoas que ainda não teve oportunidade de conhecer.

O primeiro dia traz isto mesmo: como surge a Nutrium, para onde a Nutrium caminha e como está hoje. Além disso, procuramos partilhar algo no contexto pessoal, seja conquistas, seja hobbies, enfim, o que faz cada um acordar e sentir-se preenchido.

Numa perspetiva mais de integração em engenharia, proporcionamos um momento para conhecer a equipa presencialmente e tem um mentor atribuído logo a partir do dia 1, que vai estar próximo dessa pessoa durante um projeto de onboarding, onde poderá explorar, discutir com o mentor e propor e decidir soluções que estarão disponíveis para o utilizador final, ou seja, que terão impacto no produto.

É este início de jornada que prepara um novo engenheiro para o dia a dia na Nutrium.

4. Numa startup em rápido crescimento, é essencial equilibrar velocidade de entrega com qualidade da entrega. Como é que a equipa de engenharia gere este desafio no dia a dia?

É uma constante no dia a dia de um engenheiro. Acaba sempre por cair na gestão de expectativas, e o momento chave é na colaboração com os nossos Product Managers, onde há lugar para propor alterações de scope que permitem entregar valor aos nossos utilizadores mais cedo mas também com a qualidade com que nos identificamos e queremos entregar ao utilizador.

No final das contas, a Engenharia também tem um papel fundamental na experiência do utilizador que se traduz na vertente da qualidade: menos problemas funcionais, melhor desempenho, entre outros. Claro que em momentos em que existe muito pouco espaço para tomar este tipo de decisões, existem sempre decisões de compromisso que podem resultar em entregar com qualidade mínima e melhorar de seguida.

5. De que forma a Inteligência Artificial trabalha lado a lado com os engenheiros no dia a dia? É vista como uma aliada no aumento de produtividade ou levanta preocupações quanto à substituição de funções?

A inteligência artificial é hoje uma ferramenta fundamental para a produtividade dos engenheiros. A nossa visão passa por olhar para AI como um acelerador, mas não como algo que substitui o espírito crítico, o desenho, a arquitetura ou, no final, o ownership daquilo que produzimos.

Acho que o principal desafio está em duas coisas: primeiro, perceber como tornamos estas ferramentas cada vez mais próximas da nossa forma de trabalhar, para reduzir o tempo entre termos uma ideia e a colocarmos nas mãos dos utilizadores. Segundo, perceber onde queremos investir o tempo de Engenharia que ganhamos.

E aí acho que está uma oportunidade interessante. Se antes conseguíamos entregar uma experiência mínima num determinado período, hoje podemos desafiar-nos a entregar uma experiência melhor, com maior probabilidade de sucesso, no mesmo tempo.

A preocupação com a substituição existe, naturalmente, e sobretudo em quem está há menos tempo na área. Não acho que hoje alguém consiga afirmar com segurança qual será o impacto final da AI na profissão. Mas há uma coisa que me parece bastante mais clara: um engenheiro que não se adapte a esta realidade terá menos valor do que um engenheiro que saiba usar AI como parte do seu toolkit.

No fundo, não acho que a AI retire importância à Engenharia. Acho que aumenta a expectativa sobre o que esperamos de um engenheiro e da própria inovação no produto. Por isso, o que hoje temos a certeza é que um Engenheiro que não se adapte a esta realidade irá ter menos valor do que um que já tenha AI como parte do seu toolkit no seu dia-a-dia.

6. A Nutrium tem uma equipa de Engenharia com baixa rotatividade, algo pouco comum em startups. Qual o segredo para manter a tua equipa motivada?

Não sei se existe um segredo, nem acho que seja uma coisa isolada que explique a baixa rotatividade.

O que vejo como realmente importante para as pessoas de Engenharia que fazem parte da Nutrium é sentirem-se parte disto e isso passa por várias coisas: sentirem que são valorizadas e reconhecidas, perceberem o impacto que o seu trabalho tem, serem ouvidas e continuarem a ter espaço para crescer e serem desafiadas.

Tentamos criar isso no dia a dia através de 1:1s, do feedback entre a equipa e do que aprendemos nas retrospetivas, mas também na forma como trabalhamos. As pessoas têm espaço para questionar, propor mudanças e influenciar a forma como fazemos Engenharia.

Depois há uma coisa que considero igualmente importante: orgulho naquilo que fazemos. Queremos resolver problemas de uma forma que nos deixe orgulhosos, atingir o próximo objetivo e, quando acontece, festejar em conjunto.

Acho que a combinação de impacto, autonomia, crescimento, relações e orgulho no que fazemos acaba por explicar muito mais a retenção do que qualquer iniciativa específica. No final, as pessoas ficam quando sentem que estão num sítio onde continuam a aprender, onde o seu trabalho importa e onde gostam das pessoas com quem o fazem.

7. Com a expansão para os Estados Unidos, a empresa vai crescer significativamente. O que muda para a equipa de Engenharia e como é que se garante que a cultura se mantém à medida que escalam?

Mesmo com a expansão para os EUA, contamos continuar a fazer crescer a equipa de Engenharia com o talento incrível que temos em Portugal.

Inevitavelmente, os processos poderão ter de mudar, ou até mesmo partes do nosso dia a dia. Contudo, o objetivo é preservar a forma como tomamos decisões e como trabalhamos uns com os outros, tendo por base a transparência, autonomia, responsabilidade e espaço para as pessoas contribuírem.

Para que se mantenha, além de continuar a proteger a cultura à entrada, com processos de recrutamento que validem estes princípios, é fundamental continuar a dar contexto, explicar de onde viemos, o que aprendemos enquanto equipa, o que funciona e o que não funciona, e deixar que as pessoas que entram também contribuam para aquilo que vamos ser.

8. Numa startup, há sempre a tensão entre autonomia e alinhamento. Como é que a equipa de Engenharia da Nutrium toma decisões técnicas e que margem têm os colaboradores para propor e liderar mudanças?

Os engenheiros têm total autonomia para propor mudanças na tecnologia, nas nossas práticas e/ou processos. No fundo, em toda a nossa engenharia, porque as ideias são muito mais valiosas quando vêm de vários lados, especialmente de quem está no terreno todos os dias.

Estas propostas podem surgir de algo que descobriram, de algo que estudaram no seu tempo pessoal, fruto da curiosidade, de uma oportunidade para acelerarmos ou reduzirmos bloqueios durante o desenvolvimento, ou até mesmo inspirado no que se faz noutras empresas. O passo seguinte é partilhar com a equipa em que consiste a proposta, o valor que traz para engenharia e como isso se pode traduzir para o próprio negócio.

Em casos em que isso possa ser transformacional, como foi o caso de AI, pode justificar-se a organização de momentos dedicados para experimentar, como o caso de uma hackathon interna com Product Managers e Designers, para acelerar a adoção de AI nos nossos processos de desenvolvimento.

9. Para terminar: se um engenheiro estiver a ler este artigo e estiver em dúvida entre a Nutrium e outra empresa, o que lhe diria, com toda a honestidade?

A Nutrium é um espaço que te desafia e entrega responsabilidade do início ao fim. Partimos da confiança de que és capaz e de que esta é a melhor forma de cresceres mais rápido e teres impacto na empresa.

Se procuras um sítio onde te digam exatamente o que fazer e como fazer, a Nutrium provavelmente não é para ti. Mas se procuras contexto, confiança e autonomia para fazeres melhor, então vale muito a pena conheceres-nos.

O verdadeiro desafio é trazeres ideias novas, quereres fazer parte de algo maior do que tu, e contribuíres para melhorar a forma como trabalhamos, enquanto equipa, enquanto Engenharia e enquanto empresa.

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