Categoria: Entrevistas

We Are META: onde o talento tech e as empresas portuguesas se encontram

Salários tech, trabalho remoto, retenção de talento e progressão em consultoria IT em Portugal. Conselhos práticos para developers que ponderam mudar.

Fundada em 2021 em Lisboa, a We Are META acaba de completar cinco anos e é hoje uma das referências no serviço de team extension no mercado tech português. Numa indústria IT obcecada com unicórnios, escolheram o rinoceronte como símbolo. O posicionamento é intencional: focam-se em pessoas reais, projetos reais e resultados tangíveis.

Trabalham com cerca de 25 empresas parceiras com projetos em mais de 13 países, de Portugal à Holanda, do Brasil aos EUA, têm mais de 150 consultores ativos e figuram no ranking das 50 melhores empresas de IT em Portugal, segundo a comunidade Teamlyzer. A cultura interna da empresa assenta num princípio que repetem com determinação: honestidade e frontalidade com clientes e candidatos.

A We Are META ocupa uma posição privilegiada no mercado tech: tanto conhece a fundo o lado de quem contrata, como o de quem quer ser contratado. Era exatamente essa leitura cruzada que procurávamos. Por isso, fomos falar com a Carolina Assunção, Partner e Head of Strategy & Operations.

1. Carolina, fala-nos um pouco do teu percurso e como é que chegaste ao mundo do recrutamento tech?

O meu percurso não foi linear, e acho que isso é o que o torna interessante. Comecei em Sociologia no ISCTE, o que na altura toda a gente achava uma escolha estranha (especialmente os meus amigos de informática), mas hoje percebo que foi ali que aprendi a observar as pessoas, os sistemas, as dinâmicas. Entrei directa para o mestrado em Gestão de Recursos Humanos no ISEG mas também entrei direta para a banca, no BES, agora Novo Banco. Diria que foi onde aprendi muito sobre relações de confiança e sobre o que significa realmente conhecer quem está do outro lado, as suas necessidades e claro, como funciona o dinheiro.

A transição para tech aconteceu quando as minhas colegas (e amigas!) de mestrado começaram a trabalhar na área. Foram falando comigo, referenciaram-me para uma entrevista e entrei no mundo da consultoria. Fui descobrindo que o mundo tech tem uma energia diferente: as pessoas são tendencialmente diretas, é fast pace, é inovador, diferente, e isso ressoou em mim. Fiquei seis anos numa consultora, até tomar a decisão de começar o projeto da META.

2. O que é que fazias antes da We Are META e como é que esse percurso moldou a forma como avalias talento hoje?

Na banca era gestora de clientes de alto envolvimento financeiro e na Aubay cheguei a Business Unit Manager.

Diria que todas as experiências nos dão competências diferentes e mesmo visões diferentes. Acho que a banca me abriu muito a cabeça no que diz respeito às milhares de realidades que existem (e coexistem) e em como é preciso termos capacidade de adaptação para resolver questões tão diversificadas. A consultoria trouxe-me a visão de que as empresas podem (e devem) escolher o seu caminho (o banco era um "organismo" mais pesado.)

Esse percurso moldou tudo na forma como avalio talento hoje: não há avaliação honesta sem uma conversa honesta. E honestidade não é só não mentir, é dizer o que é preciso dizer, mesmo quando é difícil. No fim, as pessoas só querem ser tratadas com verdade, respeito e justiça.

3. A We Are META trabalha com mais de 25 empresas parceiras. Para quem nunca ouviu falar de team extension, como é que descreves o modelo?

Team Extension não é outsourcing tradicional. Não é pegar numa lista de CVs e despachar quem estiver disponível.

É construir uma equipa que é genuinamente tua, em termos de cultura e de foco, mas que opera connosco como parceiros. Os consultores têm um projecto real, com impacto real, mas não estão sozinhos: têm uma estrutura de suporte, têm quem os acompanhe, têm a We Are META ao lado.

Para as empresas, é ter acesso a talento tech qualificado, rápido, sem o overhead de um processo de contratação longo. Para o developer, é ter um projeto interessante e uma rede que o acompanha ao longo do seu percurso.

4. O que é que distingue a We Are META das tradicionais empresas de outsourcing que rodam developers?

Eu posso dizer o que fazemos, mas a resposta mais honesta é: a diferença vê-se no que as pessoas dizem sobre nós, não no que nós dizemos sobre nós próprios.

Temos um dos melhores rankings do Teamlyzer em Portugal. Isso não é só marketing, mas é o que os nossos consultores escrevem quando ninguém os está a ver.

Agora, o que fazemos concretamente: temos People Experience Partners dedicadas, ciclos de feedback a cada 6 meses, formação, encontros presenciais trimestrais da nossa comunidade.

Mas mais do que as iniciativas, é a mentalidade: queremos que as pessoas estejam bem. Não é um KPI: é o ponto de partida.

E depois há uma coisa simples, mas também a mais difícil ao mesmo tempo: sermos verdadeiros. Com os nossos consultores, com os nossos parceiros. Dizer a verdade sobre as opções, sobre os projetos, sobre o que existe e o que não existe. Parece básico. Mas não é tão comum neste mercado quanto devia ser.

5. Com acesso a mais de 25 empresas e 150 consultores em simultâneo, qual é o dado sobre compensação que mais surpreende os developers quando entram em negociação?

Todas as empresas dizem que pagam bem. Todas dizem que têm benefícios interessantes. Eu incluo-me nesse grupo e tenho consciência de que a minha perspectiva sobre o que é justo é altamente subjetiva, porque sou eu que tomo as decisões. Eu acho que se o processo correu bem, nada os surpreende assim tanto porque todas as coisas devem ser discutidas no momento zero.

6. No debate entre trabalho remoto, híbrido e presencial, qual é o regime que os developers em Portugal mais pedem? Na vossa opinião, porque tantas empresas resistem ao remoto?

Todas as pessoas são diferentes. Há quem queira estabilidade e previsibilidade, há quem queira um projeto intenso que os deixe entusiasmados de manhã. Há quem queira ambos e quem não queria nenhum. Tenho um amigo próximo desta área que diz que o que mais quer é que não o chateiem. Mas, de forma geral, diria que a componente financeira juntamente com a flexibilidade remote são os dois temas que mais aparecem nas conversas.

Quanto às empresas que resistem ao remoto também não acredito que haja uma explicação única. Algumas empresas certamente acreditam genuinamente que a proximidade física cria melhores equipas e maior produtividade. Outras terão investimentos avultados em escritórios que precisam de os justificar. Também há quem sinta que controla melhor o trabalho se conseguir ver as pessoas. E há, seguramente, quem use o regresso ao escritório como uma forma silenciosa de reduzir equipas sem o risco reputacional de as despedir: forçam um modelo que sabem que uma parte das pessoas não vai aceitar, e são as pessoas a sair por iniciativa própria.

7. A progressão de carreira é uma das dúvidas mais comuns sobre o modelo de consultoria. O que os dados da We Are META mostram sobre o percurso e crescimento profissional dos vossos consultores?

As pessoas podem crescer em consultoria exatamente como crescem em empresas de produto, em startup, em corporate. São as pessoas que definem os modelos, não o tipo de negócio que exercem.

O que eu observo é que quem passa por diferentes empresas, diferentes sectores, diferentes equipas, fica extraordinariamente polivalente. Temos consultores em cargos de liderança técnica e de gestão com percursos que não seriam possíveis numa só empresa, porque acumularam experiências muito diversas em pouco tempo.

A questão não é "consigo crescer em consultoria?": a questão é "o que é que eu quero aprender a seguir?" e trabalhar a partir daí.

8. Para além do salário, o que é que as empresas que retêm developers durante anos fazem de diferente das que perdem pessoas a cada trimestre?

O mesmo que nos faz querer ficar em qualquer relação: sentirmo-nos bem tratados. Ouvidos. Que o nosso trabalho importa. Que somos vistos como pessoas e não como recursos.

Quem investe nas pessoas - e investir não é só salário, é atenção, é reconhecimento, é honestidade - consegue reter. Quem trata bem no processo de recrutamento também começa melhor: as pessoas devem saber ao que vão, sem surpresas, sem expectativas criadas que depois não se confirmam.

E depois há uma coisa muito simples que as empresas que retêm fazem bem: perguntam. Perguntam como as pessoas estão. E ouvem a resposta.

9. A inteligência artificial já está a mudar o recrutamento tech. Onde é que a IA cria eficiência real dentro da We Are META?

A IA já se instalou na META, sobretudo em tudo o que são tarefas mais burocráticas e repetitivas. Isso liberta-nos para o que realmente importa: falar com as pessoas. Compreender o que um candidato quer de verdade. Perceber o contexto de um cliente. Ler o que não está escrito no currículo. A IA é muito boa a processar informação. Não é boa a criar confiança. E no recrutamento, a confiança é o produto.

10. Para um developer em Portugal que esteja neste momento a ponderar mudar de projeto, qual é o conselho mais prático que lhe darias?

Começa por perceber o que queres. Não o que achas que deves querer, não o que toda a gente está a fazer, é o que é que tu queres. O que te motiva. Quais são os teus objetivos pessoais a médio prazo. Só depois de teres essa clareza é que faz sentido avaliar opções, falar com recrutadores, ver o mercado. Porque se não sabes o que procuras, qualquer oferta parece razoável e acabas por mudar para mais do mesmo. Faz o trabalho de dentro primeiro. Fala com colegas. O resto fica mais fácil.

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