A Iterable e o Model Context Protocol (MCP): quando a IA deixa de aconselhar e começa a executar

E se a IA deixasse de sugerir e passasse a agir? Paulo Dias, da Iterable, explica o que o MCP muda no marketing e o que vem aí para Portugal

A Iterable é uma empresa que desenvolve uma plataforma de customer engagement fundada em 2013 em San Francisco e usada por marcas como Strava, Asana ou Priceline, para gerir comunicações personalizadas à escala. A 19 de novembro de 2025, lançou o seu MCP Server, open-source, que liga ferramentas de IA como Claude e Cursor diretamente à sua plataforma, permitindo que um marketeer técnico execute tarefas em linguagem natural em vez de navegar dashboards ou escrever SQL.

O MCP é um standard aberto lançado pela Anthropic em novembro de 2024, adotado em 2025 pela OpenAI, Google DeepMind e Microsoft. Define como os assistentes de IA se conectam a sistemas externos: em vez de cada plataforma construir integrações à medida para cada modelo, existe um protocolo comum, permitindo que o utilizador interaja com esses sistemas usando linguagem natural. A Iterable foi uma das primeiras plataformas de marketing enterprise a implementá-lo com capacidades de leitura e escrita reais.

Falámos com o Paulo Dias, Site Leader e Senior Director of Engineering sobre o que muda quando a IA deixa de sugerir e começa a agir.

1. Paulo, pode falar-nos um pouco sobre si? Qual é o seu cargo na Iterable e no que consiste o seu dia-a-dia?

Claro. Sou o Paulo Dias, Site Leader e Senior Director of Engineering na Iterable, e trabalho sobretudo na interseção entre estratégia, execução e desenvolvimento de equipas. No dia a dia, acompanho líderes e engenheiros, ajudo a alinhar prioridades entre engenharia, produto e negócio e procuro garantir que construímos tecnologia com impacto real para os nossos clientes. Uma parte importante do meu trabalho passa também por desenvolver talento, apoiar decisões organizacionais e criar condições para que as equipas consigam entregar com qualidade, velocidade e sentido de responsabilidade.

2. Quando chegou à Iterable, qual foi a primeira coisa que mais o surpreendeu na forma como a plataforma estava construída?

O que mais me impressionou foi a combinação entre a escala e a ambição do produto. A Iterable não é apenas uma ferramenta de campanhas; é uma plataforma que coordena dados, personalização, decisão e execução em vários canais, tudo com alta fiabilidade. Essa complexidade obriga-nos a pensar continuamente em arquitetura, desempenho e experiência de utilização em simultâneo, o que torna o desafio técnico bastante estimulante.

3. Como explicaria a complexidade técnica da plataforma a um novo developer que entra na empresa?

A complexidade vem de três frentes ao mesmo tempo. Primeiro, há a questão da escala: lidamos com grandes volumes de dados e interações em tempo real. Em segundo lugar, há diversidade de casos de uso: email, push, SMS, journeys, segmentação, experimentação e personalização têm requisitos diferentes, mas precisam funcionar como um sistema coerente. Terceiro, existe a responsabilidade operacional: quando ajudamos marcas a comunicar com milhões de utilizadores, fiabilidade, observabilidade, segurança e controlo deixam de ser extras e passam a ser centrais desde o início.

4. A Iterable descreve-se como "AI-first". O que essa distinção significa a nível de arquitetura e o que é estruturalmente diferente dos concorrentes?

Para mim, ser AI-first não significa apenas adicionar uma camada de IA a um produto existente. Significa desenhar a plataforma para que a IA possa participar de forma útil e segura nos fluxos de trabalho reais. Isto implica pensar melhor em APIs, modelos de dados, permissões, contexto e guardrails, para que a IA não se limite a sugerir conteúdo, mas também possa apoiar decisões e executar ações com supervisão adequada. A diferença estrutural está em tratar a IA como um novo modelo de interação com o produto, e não apenas como uma funcionalidade isolada.

5. Quando o standard MCP começou a ganhar tração, o que mudou internamente na Iterable?

O MCP ajudou a tornar mais concreta uma mudança que já começava a ser sentida no mercado: a passagem de interfaces tradicionais para interações orientadas por linguagem natural e por agentes. Internamente, isso reforçou as conversas sobre a usabilidade das APIs, a segurança, as permissões, a definição clara de ferramentas e a importância de expor as capacidades de produto de forma consistente e previsível. Em resumo, deixou de ser apenas uma conversa sobre integração técnica e passou também a ser uma conversa sobre como tornar o produto mais executável por sistemas inteligentes.

6. O Iterable MCP Server expõe cerca de 105 ferramentas e corre em modo read-only por defeito. O que mudou na forma como um marketeer pode usar a vossa plataforma?

A principal mudança é a redução da distância entre a intenção e a execução. Em vez de navegar por múltiplos ecrãs, conhecer detalhes de configuração ou escrever queries para cada passo, um marketeer pode começar pelo objetivo e interagir em linguagem natural. Isso acelera a exploração, a análise e a execução de tarefas do dia a dia. Ao mesmo tempo, o facto de existir um modo read-only por defeito mostra bem a importância de introduzir este tipo de capacidade com responsabilidade, controlo e progressão gradual.

7. O que é que um setup com vários servidores MCP, por exemplo Iterable, BigQuery e Figma, desbloqueia que uma integração API-a-API clássica não conseguia?

Desbloqueia, sobretudo, o contexto partilhado e a orquestração mais fluida entre diferentes ferramentas. Numa integração clássica, normalmente temos fluxos pré-definidos e relativamente rígidos. Com vários servidores MCP, um utilizador ou agente pode raciocinar sobre informação distribuída por sistemas diferentes, cruzá-la mais depressa e executar uma sequência de ações de forma mais natural. Isso não elimina a necessidade de boas integrações, mas muda bastante a experiência: passamos de ligações ponto a ponto para fluxos mais adaptáveis, mais assistidos e potencialmente mais produtivos.

8. Se imaginar o futuro da Iterable sem restrições técnicas ou de tempo, como imagina um marketeer a interagir com a vossa plataforma daqui a alguns anos?

Imagino uma experiência muito mais orientada a objetivos do que a menus. Em vez de pensar onde clicar, o marketeer descreve o resultado que quer alcançar, recebe propostas, compara alternativas, simula o impacto e decide o que colocar em produção. A plataforma continuará a precisar de controlos, aprovação e transparência, mas a interação tenderá a ser muito mais conversacional, contextual e assistida. O grande objetivo é permitir que as equipas passem menos tempo a operar ferramentas e mais tempo a pensar em estratégia, criatividade e impacto para o cliente.

9. Para alguém que gostava de trabalhar convosco na Iterable em projectos avançados de IA, que conselho pode dar?

O meu principal conselho é combinar profundidade técnica com curiosidade sobre o problema de negócio. Projetos avançados de IA não se fazem apenas com bons modelos; fazem-se com engenharia sólida, dados bem estruturados, sentido de produto e noção clara de risco e responsabilidade. Por isso, valorizo particularmente pessoas movidas por uma curiosidade genuína e pelo desejo de compreender em profundidade o "porquê" das coisas, capazes de comunicar com clareza, colaborar com diferentes perfis e transformar tecnologia complexa em soluções verdadeiramente úteis para clientes reais. A base continua a ser excelente engenharia, mas com uma mentalidade muito aberta à experimentação e à evolução rápida.

10. O que podemos esperar do hub português nos próximos tempos? Há algum plano concreto que possa partilhar connosco?

O que posso partilhar é que continuamos a ver Portugal como uma aposta de longo prazo, com equipas muito fortes, talento de elevada qualidade e capacidade real de contribuir em áreas estratégicas do produto e da engenharia. O foco passa por continuar a consolidar essa presença, reforçar a colaboração global e criar um ambiente em que as pessoas possam crescer e ter impacto. Mais do que anunciar detalhes específicos, o importante para mim é dizer que queremos continuar a construir um hub cada vez mais relevante, ambicioso e bem ligado ao resto da organização.

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