She Is Tech 4.0: a conferência gratuita que junta milhares de mulheres em tech
Fica a conhecer melhor este evento sobre inclusão feminina no setor tecnológico e sobre como reter mulheres na área.
A conversa sobre mulheres em tecnologia já passou a fase do "precisamos de mais mulheres na área". A pergunta que interessa hoje é outra: o que acontece depois de entrarem? Quem cresce, quem chega a cargos de liderança, quem fica e quem sai ao fim de alguns anos.
A She Is Tech 4.0 procura aprofundar a discussão sobre o percurso das mulheres depois de entrarem no setor tecnológico. É uma conferência online e gratuita marcada para 5 de novembro, com o tema "Women Building the Next Real Economy".
A iniciativa nasceu na Intellias, empresa tecnológica fundada na Ucrânia em 2002, presente em Portugal desde 2022 e focada em projetos de consultoria. Nas três primeiras edições, a conferência juntou mais de 7.500 participantes de mais de 60 países.
Para conhecermos melhor o evento, falámos com Maryna, Head of Sustainability & Social Impact da Intellias e uma das organizadoras.
1. Olá Maryna! Conta-nos um bocado do teu percurso. Como é que a tecnologia entrou na tua vida?
A minha carreira começou, na verdade, bastante longe da tecnologia. Trabalhei no setor público, no terceiro setor (organizações privadas, sem fins lucrativos) e, agora, no mundo empresarial, mas houve sempre um elemento comum: trabalhar com pessoas e tentar gerar um impacto social positivo.
A tecnologia passou a fazer parte do meu percurso quando entrei para a Intellias. Hoje, enquanto Head of Sustainability & Social Impact, trabalho na interseção entre negócios, pessoas e sociedade, abordando temas que vão desde a igualdade de género e a inclusão à acessibilidade, ao apoio a veteranos e à sustentabilidade.
O que considero particularmente interessante na tecnologia é a sua escala. A tecnologia molda a forma como trabalhamos, comunicamos, acedemos a serviços e tomamos decisões. Por isso, para mim, é importante não perguntar apenas que tecnologia estamos a desenvolver, mas também quem a desenvolve e se as necessidades e experiências de diferentes grupos estão verdadeiramente representadas.
2. Estás a organizar a She Is Tech este ano. Na tua opinião, de que forma é que iniciativas como esta conferência ajudam o mercado tech a evoluir?
Para mim, a She Is Tech é muito mais do que uma conferência. Começámos esta iniciativa para apoiar as mulheres no setor tecnológico, mas, ao longo dos anos, esta transformou-se numa comunidade e num ecossistema internacionais.
Nas três primeiras edições globais, reunimos mais de 7.500 participantes de mais de 60 países, juntamente com oradores, parceiros, mentores e comunidades de diferentes partes do mundo.
O tema deste ano, "Women Building the Next Real Economy", representa também uma evolução importante para nós. Queremos levar a conversa para além da simples ideia de incentivar mais mulheres a entrar na tecnologia. As mulheres já estão a criar empresas, produtos e tecnologias, a liderar equipas, a trabalhar com inteligência artificial e a transformar setores inteiros. A questão agora é como criamos mais oportunidades para que cresçam, liderem, estabeleçam ligações e influenciem o que vem a seguir.
3. Houve alguma situação concreta na tua carreira em que sentiste que eras tratada de forma diferente por seres mulher? Como lidaste com essa situação?
Não diria que existe uma situação específica que defina a minha experiência. Para mim, tratou-se mais de pequenos momentos e expectativas que muitas mulheres provavelmente reconhecem: sentir que é preciso provar um pouco mais a nossa competência, estar especialmente preparada ou pensar duas vezes antes de falar com confiança.
Ao mesmo tempo, tive a sorte de trabalhar com muitas pessoas que apoiaram o meu crescimento profissional, tanto mulheres como homens.
Acredito que é precisamente por isso que prefiro olhar para a inclusão não apenas através das experiências individuais, mas também através dos sistemas. Não devemos esperar simplesmente que as mulheres se tornem mais confiantes ou resilientes. As empresas também precisam de analisar se todas as pessoas têm acesso igual a oportunidades, visibilidade, desenvolvimento e tomada de decisão.
4. Nas empresas por onde passaste, viste iniciativas de diversidade que trouxeram mudanças reais? O que é que essas empresas fizeram de diferente?
Sim. Na minha experiência, a maior diferença acontece quando a inclusão deixa de ser uma iniciativa isolada e passa a fazer parte da forma como a empresa realmente funciona.
Na Intellias, por exemplo, combinamos objetivos de longo prazo com ações muito concretas: analisamos a representação de género e a presença feminina em cargos de liderança, revemos práticas de recrutamento, desenvolvemos lideranças, melhoramos a acessibilidade, promovemos comunidades e criamos plataformas como a She Is Tech.
Também acredito que as métricas são essenciais. É fácil organizar uma campanha ou um evento; muito mais difícil é analisar os dados de forma honesta e perguntar se algo mudou realmente.
Para mim, o verdadeiro progresso acontece quando existem ambas as dimensões: iniciativas que envolvem as pessoas e um trabalho sistémico que continua muito depois de uma campanha terminar.
5. Que tema ligado à inclusão em tech achas que merecia mais atenção do que tem tido?
Diria que a acessibilidade.
A igualdade de género é uma parte importante do meu trabalho e uma causa que me é muito próxima, mas acredito que a indústria tecnológica ainda tem um longo caminho a percorrer no que diz respeito à acessibilidade, tanto nos locais de trabalho como nos produtos e serviços que desenvolve.
E este tema torna-se cada vez mais relevante. A acessibilidade não diz respeito apenas a um pequeno grupo de pessoas. A deficiência pode ser permanente, temporária ou situacional, e as nossas necessidades mudam ao longo da vida.
Especialmente para as empresas tecnológicas, a acessibilidade deve ser considerada desde o início do processo de desenvolvimento, e não adicionada no final. É uma questão de inclusão, mas também de melhor design.
6. Se pudesses sugerir uma única prática na forma como as equipas de engenharia são geridas, para as tornar mais inclusivas, qual seria?
Não sendo de engenharia, responderia a esta questão numa perspetiva de inclusão: criar diferentes formas para que as pessoas possam contribuir e ser ouvidas.
Nem todas as pessoas comunicam da mesma maneira. Algumas sentem-se confortáveis a falar de imediato numa reunião grande; outras precisam de tempo para processar informação ou preferem contribuir por escrito ou em grupos mais pequenos.
Um bom gestor não assume que a voz mais alta ou mais rápida é necessariamente a que tem a melhor ideia. Criar diferentes formas de participação parece algo simples, mas pode fazer uma diferença real, especialmente em equipas diversas e internacionais.
7. Ao longo da tua carreira, viste colegas mulheres a sair da área tech? Quais foram os motivos? E o que leva as pessoas a ficar?
Sim, mas não acredito que exista uma única razão universal para que as mulheres abandonem o setor tecnológico.
Por vezes, está relacionado com a progressão de carreira ou com a falta de perspetivas de crescimento. Outras vezes, tem a ver com responsabilidades de cuidado familiar, flexibilidade, esgotamento profissional, cultura organizacional ou simplesmente com a decisão de que outra indústria ou carreira se adequa melhor aos seus objetivos.
Por isso, considero que as empresas devem olhar para além do recrutamento. Atrair mais mulheres para a tecnologia é importante, mas a questão mais relevante é o que acontece depois. Têm oportunidades para crescer? Veem mulheres em cargos de liderança? Dispõem da flexibilidade necessária em diferentes fases da vida? Sentem que a sua experiência e conhecimento são valorizados?
Atrair mulheres para a tecnologia é apenas uma parte do trabalho. Criar um ambiente onde possam construir carreiras de longo prazo é igualmente importante.
8. Qual é o erro mais comum que vês em líderes de equipas tech que querem ser inclusivos mas ainda estão a aprender como o ser?
Provavelmente, assumir que boas intenções são suficientes.
A maioria dos líderes quer genuinamente tratar as pessoas de forma justa. No entanto, todos nós temos pressupostos e hábitos que influenciam a forma como tomamos decisões: quem ouvimos, quem ganha visibilidade, quem recebe oportunidades de desenvolvimento ou quem imaginamos quando pensamos em potencial de liderança.
Para mim, liderança inclusiva não significa conhecer toda a terminologia correta. É algo muito mais prático: fazer perguntas, ouvir, analisar dados, estar aberto a feedback e, por vezes, mudar a forma como sempre fizemos as coisas.
9. Que conselho darias a uma mulher que está a pensar entrar na área tech ou a mudar de carreira para tech?
Não esperes até te sentires 100% preparada.
A tecnologia é muito mais ampla do que a engenharia, e existem muitas formas de construir uma carreira nesta área. O meu próprio percurso é um bom exemplo disso: vim de setores completamente diferentes e encontrei aqui o meu lugar sem ter uma formação tecnológica tradicional.
Mantém a curiosidade, continua a aprender, conversa com pessoas que já trabalham nas áreas que te interessam e investe na tua rede de contactos. As comunidades podem ajudar muito porque oferecem acesso não só a conhecimento, mas também a pessoas que podem partilhar experiências e abrir novas perspetivas.
E esta é também uma das ideias que está na base da She Is Tech. Não tens de construir a tua carreira sozinha. Existe uma enorme comunidade de mulheres que já estão a criar, liderar, aprender, mudar de carreira e a ajudar-se mutuamente.
