Despedida 2 vezes em 2 anos. Fica a conhecer a minha história.

Estava a sentir-me excluída da tendência dos despedimentos em tech e decidi juntar-me… pela segunda vez.

No início do COVID, a Unbabel, “despediu” 30% dos seus colaboradores, e eu fui uma delas. Tudo aconteceu em cerca de 3, 4 dias, desde o anúncio até assinar o acordo e sermos desligados do Slack e do email.

E, agora, 2 anos depois, fui afetada novamente. Mas foram experiências completamente distintas!

2020 - Unbabel

A 9 de abril de 2020, a Unbabel, plataforma de tradução automática, anunciou que iria dispensar 30% dos seus colaboradores (~90 pessoas) devido ao impacto do COVID na sustentabilidade do negócio. Foi-nos dito numa zoom call geral, que se seguiu de chamadas individuais.

Fui das primeiras a ter a tal chamada, onde estava presente o meu manager, VP de Marketing, e o CEO da empresa. De seguida, recebemos a proposta financeira por email.

Devido ao elevado número de pessoas afetadas, a empresa não nos podia despedir oficialmente, pelo que tudo foi feito por acordos mútuos, excluindo-nos do acesso ao fundo de desemprego.

Ficámos com todos equipamentos eletrónicos como computador portátil, ecrã, teclados, etc. e com acesso ao seguro de saúde até ao fim do ano.

No entanto, alguns pontos foram menos confortáveis:

  • Não tivemos direito ao fundo de desemprego — num momento de tanta incerteza global, deixou muitos de nós com medo pois, se não arranjássemos trabalho rapidamente, o dinheiro do acordo poderia não ser suficiente.
  • As equipas de liderança e HR prometeram que nos iriam ajudar a encontrar a próxima oportunidade. Para além de uma lista de contactos de todos os empregados afetados partilhada no LinkedIn, isso nunca aconteceu.
  • Fomos muitas vezes pressionados a aceitar o contrato, e houve pouco espaço de negociação. Em suma, houve uma fraca liderança e gestão de problemas.

2022 - Skoach

A Skoach é uma startup pequena de 4 pessoas que desenvolveu um chatbot no Slack e no Teams para tornar as experiências de equipa mais fortes e produtivas. Infelizmente, tornou-se difícil garantir a sua sustentabilidade no contexto atual pelo que houve uma redução da equipa.

Dois meses antes do término do contrato, fomos informados da situação financeira da empresa. Este foi um processo muito mais humano, que nos deu tempo para preparar, tanto mentalmente (“Ok, tens algumas semanas para reorganizar a tua vida!”), como para começarmos processos de recrutamento.

Aqui a liderança, comunicação constante e transparente, foram fulcrais para diminuir a frustração.

O que precisas de saber na hora H?

À partida, os despedimentos serão feitos através de “rescisão por mútuo acordo” — isto significa que se a empresa despedir um grande número de colaboradores, poderás não ter direito ao fundo de desemprego.

O que tens a receber da empresa:

  • Subsídio de férias e de natal (se receberes a duodécimos, recebes o que te falta);
  • Indemnização (12 dias por cada ano de casa);
  • Horas de formação não facultada pela empresa;
  • Férias ainda por usufruir (a empresa pode pedir para tirares estes dias de férias, em vez de os pagar).

O Simulador de Compensação por cessação de contrato de trabalho da ACT pode ajudar-te a ter uma noção dos valores.

Lembra-te que podes recusar o acordo e continuar como colaborador da empresa se não concordares com a proposta feita! Alguns dos meus colegas optaram por esse caminho — é um processo demorado que envolve advogados de ambas as partes, mas em momento algum te deixes intimidar.

Para além da compensação financeira, podes também:

  • Pedir para ficar com o computador, telemóvel, e outros equipamentos;
  • Continuar com os benefícios do seguro de saúde: as quotas são feitas anualmente, assim podes usufruir até à data de validade.

Como dar a volta?

Foi um grande choque! De repente, estava desempregada e senti-me fraca, sem coordenadas sobre o meu futuro, e com a minha autoconfiança no fundo.

Em Portugal, o empregado está protegido, pelo que estas experiências, pelo menos no meu caso, deram-me algum tempo para refletir e reinventar-me.

Depois de algumas semanas a descansar, comecei a focar-me no processo de procura de trabalho. A primeira questão que tinha era: "Quem me pode ajudar a criar uma Mariana forte e relevante?”. E assim comecei um processo de coaching e autodescoberta de 8 semanas.

Comprei um domínio, mary4globalgoals.me, criei o meu site (felizmente, tinha aprendido a programar), e comecei a partilhar as minhas experiências no LinkedIn. Não só inspirei várias pessoas na mesma situação, como ajudou a destacar-me.

Checklist para o processo de procura de emprego:

Começa por atualizar o teu CV. Podes fazê-lo em plataformas como:

  • O Canva (deixo-te aqui um template)
  • O Notion (este template pode dar-te umas ideias)

Escreve as tuas forças, sucessos, e valores, um por um! Vai fortalecer o teu pitch durante as entrevistas:

Pede recomendações no LinkedIn aos teus colegas e managers:

  • Podes utilizar este conteúdo para o teu website, CV, identificares as tuas forças, etc.

Concluindo

Podes olhar para esta experiência como uma “altura negra” no teu CV, ou como a oportunidade que precisavas para te reinventar. Foi o que eu fiz.

O tempo entre trabalhos foi uma ótima oportunidade para pôr em prática as minhas competências de web development e fiz um website incrível que me ajudou a ter várias entrevistas em poucos dias. Isto em conjunto com partilhar os momentos menos bons da procura de trabalho, e criei a minha marca pessoal, que faz parte de mim até hoje.

Ao começar um novo trabalho (ele vai aparecer, acredita!), decidi que a minha identidade não estava ligada àquilo que faço das 9 às 6. Comecei a olhar para o trabalho como o facilitador das experiências que quero: assim, comecei a minha experiência de nómada digital — já lá vão 6 cidades, 3 ilhas, e 2 países, a caminho do terceiro!

Entre um despedimento e outro, perdi o medo de oferecer aquilo que sei fazer. Pus-me no mercado como freelancer, e aos poucos os clientes foram aparecendo. Ganhei confiança naquilo em que sou boa o que fez com o que o segundo despedimento não fosse tão duro: eu sei que posso vingar fora de um trabalho corporativo regular.

Partilhar este artigo

Faz a review da tua empresa

Partilha como é o teu (ex) empregador. É anónimo e leva 3 minutos!