10 verdades que não te dizem sobre programas de aceleração de startup

Os programas e concursos de startups nunca foram tão promovidos como nos último anos. Mas a realidade nem sempre coincide com as falsas promessas.

Um programa de aceleração tem pelo menos duas componentes. Os workshops e consultoria individualizada dada por mentores. Poderá haver uma sessão de financiamento e visitas a centros tecnológicos. Este último programa, referente a 2017, teve 8 semanas com dois dias a full-time. Decorreu à 5ª e 6ª feira e contou com 12 projectos.

Este artigo reflecte a opinião de quem o escreve. Resulta da experiência enquanto participante em dois programas. Um em 2017 e outro em 2013.

#1 Caça aos fundos públicos

As organizações que promovem este tipo de programas recebem financiamentos para os realizarem. A exemplo, falamos do Portugal 2020, Alentejo 2020 ou Fundos Europeus Estruturais e de Investimento.

O que lhes interessa não é se os projectos vão ter sucesso. O objectivo é ter participação que justifique o financiamento recebido. Ou a receber.

Não estranhes um dos organizadores andar desesperado com uma folha atrás de ti para recolher a tua assinatura de presença. É esse conjunto de assinaturas que lhes justifica os fundos a receber.

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#2 Falsas promessas

É fundamental que entendas este ponto. Todas as tuas dúvidas antes do começo do programa são respondidas de acordo com o que queres ouvir. Desta forma é mantido o interesse do promotor em participar.

O objectivos das startups quem participam nestes programas é quase sempre o mesmo. Ir à procura de investimento.

Apesar dos organizadores saberem que é dificílimo obter investimento quase nunca o revelam para não espantar os participantes. A taxa de investimento recebido no programa de 2017 foi de 0%.

#3 Cuidado com os conselhos

Os mentores que deram a consultoria e workshops são pessoas com experiência fundamentalmente académica. Parte deles estavam envolvidos na produção do Shark Tank.

Posso dizer que o único bom conselho que ouvi foi comprar o dominio (TLD) .com em vez do .pt. Ouvem-se uma série de conselhos perigosíssimos como "vão pedir à cofidis", "despede-te e fica a tempo inteiro", "não te preocupes com investimento, é o mais fácil".

Confesso que me faz confusão a leveza com que se dão recomendações desta ordem e com as consequências que podem ter.

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#4 Sessão de investimento fantasma

Nesta fase não compareci. Já me tinha apercebido que seria uma perda de tempo. No entanto, falando com outros promotores que participaram confirmei o que suspeitava.

Na sessão, que atrasou 1.30h, apareceram apenas dois investidores. Um deles era representante da Portugal Ventures. Claramente não tinha intenção de investir e apenas foi fazer um frete a pedido de alguém. Fechou todas as portas ao dizer que para “pequenos” montantes de 15.000€ e 50.000€ tinham de ir pedir a business angels.

Na última sessão de apresentação apareceu o segundo investidor. Um business angel que ouviu apenas o pitch de 1 projecto.

#5 O mentor pode saber ainda menos que tu

A pior ideia que recebi, e que atrasou substancialmente o crescimento do Teamlyzer, foi-me dada no programa. Fui incentivado a que também deveria começar o projecto no Brasil.

Hoje é fácil perceber que nunca o deveria ter feito. Por ter desconhecimento do mercado, por haver uma plataforma concorrente estabelecida e principalmente por ser um “solo funder”. A única coisa que consegui foi perder o foco.

No dia em que ocorreu o acidente com a VPS tive o empurrão que precisava para encerrar o projecto no Brasil. A expansão poderia fazer sentido, mas nunca na fase em que me encontrava.

Em último caso a decisão foi minha e aprendi com o erro. O ponto positivo é que os brasileiros ajudaram-me muito fazendo testes na versão beta. E que foram naturalmente aproveitados para a versão portuguesa.

#6 Mentores e organizadores desaparecem

A partir do momento em que o programa termina vais perceber que as respostas aos emails e sms começam a demorar. Chega a ser meses ou a simplesmente a não existir resposta.

O normal é que fiques com exactamente os mesmos problemas que tinhas aquando o início do programa.

#7 Mas voltam a aparecer quando têm interesses

Inesperadamente, ou não tanto, voltam a spammar a tua caixa de email sempre que há algum evento de empreendedorismo.

Como precisam de preencher as vagas, podes ter a certeza que voltam a contactar-te. O que está em jogo é o financiamento das incubadoras e aceleradoras a que eles pertencem.

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#8 Prémios envenenados

No programa de 2013 fiquei em 2º lugar. Recebi inúmeros prémios que não usufruí. Incubação, assessoria de gestão, assessoria financeira, contabilidade, apoio jurídico. Tudo inutilidades que expiram e que não fazem sentido para projectos que ainda não são empresas.

Neste último programa havia um prémio através do voucher startup no valor de 5000€. Claro está… forçou à criação de empresa pelo vencedor por este não ter outra alternativa de usufruir do voucher.

Uma empresa deve ser criada quando há potencial de facturação. Não por imposição de concursos.

#9 Projetos rocambolescos apoiados

Aparecem coisas que nem com boa fé se conseguem levar a sério.

Um deles, um promotor que viu o seu projecto rejeitado no dia anterior, acordou a pensar que pela escassez de burros na China queria agora criar carne do mesmo animal. Iria exportar para fazer E Jiao. Um medicamento tradicional que é feito usando pele de burro.

Enquanto isso um dos projectos bem estruturados e que era realisticamente simples de executar levou porrada de todo lado pelos mentores.

Mas é o que mais cresceu. Hoje é evidente que fizeram uma avaliação errada. Falo de um projecto similar ao Booking para experiências agrícolas com público alvo em estrangeiros (Portugal Farm Experiences & Tours).

#10 Estás por tua conta

Nesta altura já vais perceber que a única coisa que aproveitas são os contactos com outros promotores que estão na mesma situação que tu.

O resto é mais fachada que realidade. São press releases distribuídas e corroboradas pela imprensa a dizer que foi mais um sucesso. Quando todos os promotores sabem que a realidade não é essa.

A participação em concursos, como todas as outras coisas, treina-se. Por isso não te admires que sejam sempre as mesmas startups a ganharem prémios. Quando deviam mas era estar preocupadas com a auto-sustentabilidade financeira em tempo útil.

Bem dizem que nem tudo que reluz é ouro. E é bem verdade.