Os verdadeiros motivos para os salários de TI não subirem em Portugal

O recrutamento de engenheiros informáticos é cada vez mais fácil. Estratégias que as empresas usam para aumentar a oferta sem que subam os salários.

Todos nós lemos notícias com uma periodicidade regular onde as empresas portuguesas se queixam que há falta de programadores. Ou de forma mais genérica, de profissionais das TIC.

Quando não são as empresas a disseminar essas notícias em forma de propaganda, são as agências de recrutamento. Fazem-no com estudos tendenciosos, de fraca fiabilidade, denominados de guias laborais. Por norma são estudos que apresentam conclusões que alimentam o negócio dessas mesmas empresas.

Inspirado por esta discussão e apresentando factos concretos de entidades independentes:

  • Em Portugal o número de especialistas em tecnologia da informação e comunicação diminuiu, desde 2014 até 2017, de 110.9 para 104.3 mil profissionais. Eurostat

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  • Em 2017 Portugal foi o segundo país da União Europeia com menor dificuldade em recrutar na área de TI. Apenas 35% das empresas portuguesas sentiram dificuldades. Menor só as empresas espanholas com 25%. A média da União Europeia foi 53%. No extremo oposto temos a Holanda com 69%, ou Áustria, com 78% das empresas a revelarem dificuldade em preencher as posições de TI. Eurostat

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O único meio de comunicação social que fez alguma cobertura deste assunto foi o ECO.

#1 Lei da oferta e procura cumpre-se

A descida no salário médio dos profissionais de TI coincidiu, no mesmo período, com a redução do número de profissionais existentes no mercado.

A explicação mais óbvia prende-se com a emigração de profissionais portugueses para países com maior, e real, dificuldade de recrutamento onde recebem mais. Quem entra para compensar quem saiu está a ganhar menos. Race to the Bottom

Em termos económicos, só pode haver escassez de oferta a um determinado preço. Se as empresas têm realmente dificuldades em contratar devem aumentar o preço que estão dispostas a pagar por um profissional de TI.

#2 Noticias da falta de candidatos têm segundas intenções

Existem, sim, falta de programadores ao preço que as empresas admitem pagar.

Estas notícias tendem a pressionar o governo a intervir. Falamos da criação de subsídios de reconversão profissional ou de facilitar a legalização de profissionais extracomunitários através de novas políticas de imigração qualificada.

Desta forma as empresas conseguem continuar a recrutar sem subir salários. Não é desprezível que as notícias são influenciadoras da opinião pública, feitas de forma concertada pelos grandes players do sector.

Conduzem também ao aumento de estudantes interessados em enveredar por esta área profissional. Assim permitirá o alargamento da oferta a médio prazo. Nos bootcamps esse alargamento é praticamente imediato, à distância de poucas semanas.

3# Impacto dos bootcamps e reconversão profissional

É aceitável a ideia de que muito trabalho feito em TI não requer grande especialização, e, portanto, não é necessário curso superior.

O problema é que muitas pessoas que procuram a reconversão profissional, estão desempregadas, ou vêm de outras áreas profissionais de fraca procura, como ciências sociais, estando dispostos a aceitar valores mais baixos.

Um engenheiro informático em começo de carreira está a concorrer directamente com estes profissionais, que, aos olhos de muitas consultoras, estão aptos para exercer em poucas semanas de formação.

4# Aumento da imigração qualificada

Como é sabido várias empresas portuguesas, maioritariamente consultoras, estão a contratar milhares de profissionais brasileiros qualificados nos últimos tempos.

Algumas empresas tratam do visto, de toda a legalidade, outras contratam como prestadores a falsos recibos verdes até estes estarem legalizados por sua conta.

É frequente haver um certo aproveitamento do desconhecimento do nosso mercado. Há a desculpa de estarem a começar a carreira noutro país para oferecer salários abaixo do que é praticado para os profissionais portugueses.

A fuga de talentos tem vindo a ser compensada com bootcamps e imigração qualificada, ao contrário da subida de salários.

Não há portanto retenção, mas sim, substituição, de um profissional, por outro. Por norma ao menor preço, com a máxima rapidez possível.

5# Profissionais pouco especializados vistos como uma commodity

Uma commodity define-se por algo que é indiferenciado aos olhos de quem compra. Açúcar por exemplo. A oferta parece toda igual. É o que está a começar a acontecer com os profissionais pouco especializados de TI. Neste caso as empresas fazem aquilo que todos fazemos no supermercado. Escolhem o mais barato.

#6 Pressão para produzir mais com os mesmos recursos humanos

É um comportamento que acontece com frequência nos prestadores de outsourcing. Como não há diferenciação entre empresas, já que também elas parecem todas iguais, até no nome, o único motivo de diferenciação é competir pelo preço.

Fazem-se estimativas irrealistas que irão sobrecarregar os próprios colaboradores. Que, por sua vez, têm isenção de horário, ou, mais simples, não lhes pagam as horas extra.

#7 Deslocalização de empresas estrangeiras

Existem inúmeras multinacionais a deslocalizar parte do TI para Portugal. O ponto positivo é que se cria novos postos de trabalho. O ponto negativo é que o principal motivo da deslocalização é a mão de obra barata.

O que acontece frequentemente é que essas empresas num ápice adotam as práticas vigentes do mercado nacional. E esquecem as boas práticas de mercados mais maduros de onde vêm.

Veja-se os exemplos dos grandes bancos franceses que rapidamente se aliaram às consultoras francesas, com presença em Portugal, para formar equipas de trabalho outsourced.

8# É difícil recrutar certos profissionais experientes

Profissionais com grande grau de especialização, de vasta experiência no mercado, estão a ser muito procurados. Mas não deixar de ser apenas uma pequena franja, que não é representativa do mercado nacional como um todo.

Empresas como a Feedzai, Talkdesk, Unbabel, entre mais alguns escassos exemplos, têm realmente dificuldade em atrair certos perfis qualificados. Mesmo pagando muito acima do mercado.

TL;DR: Há escassez, mas é de informáticos bons, baratos, imediatamente disponíveis e que estejam dispostos a trabalhar para empregadores questionáveis.