Caso de estudo: o insucesso do recrutamento online por referências

Primeiro artigo onde se discute casos de insucesso de startups portuguesas de recursos humanos. Começamos pela Mr Refs, startup de recrutamento por referências.

Vão surgindo diversos projectos no panorama nacional de recrutamento online. Como é normal, uns resultam, e por diversos motivos, outros falham.

Nesta série de 4 artigos vamos relembrar algumas startups de recrutamento nacionais que não foram bem-sucedidas.

Tão importante como entender os casos de sucesso, é perceber os de insucesso para aprender com eles e evitar cometer os mesmos erros. Esta semana começamos pela Mr. Refs.

Fundada em 2015, a Mr. Refs teve como principal parceira a Jason Associates, empresa portuguesa, especialista em Recursos Humanos, adquirida recentemente pela americana Mercer.

Apesar dos conhecimentos, e contactos, providenciado pela Jason, estes foram insuficientes para a estabelecer a Mr. Refs no mercado de recrutamento nacional.

Chegou a ter 15.000 utilizadores e mais de uma centena de empresas a anunciar oportunidades. Todavia, mais importante do que ter um elevado número de utilizadores inicial, é criar um ritual de uso. Ou seja, mantê-los activos, e isso é muito mais difícil de alcançar de forma consistente a médio e longo prazo.

A Mr. Refs tinha como lema "encontra emprego para os teus amigos e serás recompensado" e funcionava de forma idêntica à Jobbox, agora chamada Landing Jobs. No entanto, esta última, tem-se vindo a afastar dessa estratégia e a aproximar-se mais do modelo de consultora.

Como se pode ver nas imagens, entre 2015 e 2018, foi abandonado o destaque que era dado às referências.

Screenshots da plataforma jobbox

 

Voltando à Mr. Refs, esta plataforma recorria ao chamado crowdhunting. As pessoas ganhavam dinheiro por referenciar outras. A empresa pagava um fee pela referência de um perfil que fosse efectivamente recrutado.

O plano de marketing está disponível para consulta porque foi objecto de estudo de uma tese de mestrado. Nela é concluído que este modelo de referenciação não resulta, por vários motivos, para um site de ofertas generalizadas, como era o caso.

 

"Oportunidades que exigem pouco ou nenhum nível de especialização não costumam, pelos baixos salários e alta rotatividade, ter orçamento para investir no recrutamento. Por isso, costumam utilizar os canais gratuitos."

 

"Tanto as oportunidades tecnológicas, com baixo índice de sucesso das referências, quanto os segmentos de baixo ou alta especialização, pelas diferentes necessidades de custo e serviço, não se adequam ao target e à proposta do Mr. Refs."

 

Ainda foi proposto um pivot (testar novas hipóteses sobre o projecto e sua estratégia inicial) direccionando a plataforma para um nicho de mercado. Áreas de gestão, marketing, recursos humanos e engenharias, eram, aparentemente, as mais promissoras.

No entanto, o projecto acabou mesmo, e essa transição acabou por nunca ser feita.